Hoje pouca gente sabe quem foi Wilson Simonal (Rio de Janeiro, 26/02/1938) e o que menos se sabe é que ele foi, junto a Roberto Carlos, o cantor de maior sucesso no Brasil dos anos 60 e início dos 70. O primeiro pop star negro a ser capa de revista e ter muito prestígio. Apesar de sua enorme popularidade, ele não era “brega”, Caetano Veloso já se referiu a ele como “um bom cantor de samba-jazz”. Mas esta estrela de bela voz em riqueza de timbre e âmbito vocal semelhante aos melhores cantores americanos, além de multi-instrumentista, um dia se apagou bem antes de sua morte em 25 de junho de 2000.
Filho de uma empregada doméstica, Wilson Simonal de Castro começou a cantar por pura diversão em meados dos anos 50, durante os três anos que serviu no 8o. Grupo de Artilharia da Costa no Leblon, no Rio de Janeiro, onde era chamado de “o Harry Belafonte brasileiro”. Ao dar baixa, foi crooner do grupo de rock e calypso The Dry Boys depois rebatizado de Os Guaranis. Em 1961, foi descoberto pelo compositor e empresário Carlos Imperial que logo o lançou solo com o disco (de 78 r.p.m.) “Teresinha”, um típico chá chá chá, que o impulsionou a apresentações no programa de TV “Os Brotos Comandam”. No programa Simonal, sempre impecavelmente vestido, conquistou os espectadores com seu charme e simpatia radiante. Wilson Simonal também flertou com a bossa nova e foi levado por Luiz Carlos Miéle para se apresentar no lendário Beco das Garrafas, onde ganhou a admiração de Elis Regina.
Contratado pela gravadora Odeon (subsidiária da EMI no Brasil) lançou seu primeiro álbum “Wilson Simonal Tem Algo Mais” em 1963, contendo o sucesso “Balanço Zona Sul”. No ano seguinte, foi figura constante do programa musical “Spotlight”, na TV Tupi e lançou seu segundo Lp “A Nova Dimensão do Samba” de onde o compacto “Naná” estourou nas rádios de todo o Brasil. Mas Wilson Simonal mostrou que era mais que um sucesso comercial com “Jeito Bom de Sofrer” uma composição de sua autoria com os sofisticados arranjos de Eumir Deodato. A fórmula Simonal/Deodato rendeu os álbuns “Wilson Simonal” (destacando os hits “Garota Moderna” e “Chuva”) e “S´imbora” ambos de 1965, que puxaram uma turnê pelo Brasil de Simonal acompanhado do Zimbo Trio (Ámilton Godói - piano, Luís Chaves - baixo e Rubinho - bateria) patrocinada pela Rhodia que também os levou para apresentações em Cannes, na Riviera francesa junto a Elizete Cardoso e Chico Buarque.
Em 1966, o álbum “Vou Deixar Cair”, gravado com o Som Três (César Camargo Mariano-piano, Sebastião Oliveira Paz-baixo e Antonio Pinheiro Filho-bateria) popularizou a “pilantragem” um ritmo dançante criado por Simonal, Carlos Imperial e o compositor Nonato Buzar, que emplacou nas paradas com os compactos “Meu Limão Meu Limoeiro” e “Mamãe Passou Açúcar em Mim”. O sucesso de vendagem foi tamanho que Simonal, ainda em 66, lançou mais dois compactos de sucesso com “Não Vem Que Não Tem”(incluída no filme “Cidade de Deus”, em 2002) e “Carango” ambos no ritmo da “pilantragem”. Apesar do comercialismo do ritmo, arranjadores como César Camargo Mariano e Erlon Chaves garantiram a qualidade do repertório. Foi nessa época que estreou “Show em Si...monal”, na TV Record, que lançou Tim Maia ao estrelato, e onde Simonal apresentou seu próprio merchandising: o Mug, um boneco redondo de pano preto com um palmo de altura que foi uma coqueluche naquele natal. O “Show em Si...monal” também foi título de um álbum duplo gravado ao vivo durante um show do cantor no Teatro da Record em São Paulo em comemoração ao primeiro aniversário do programa, que colocou Simonal com um dos melhores salários da TV brasileira na época. O concerto foi aclamado pela crítica que ressaltou as habilidades de Simonal como showman. O disco trouxe uma versão ao vivo de “Tributo a Martin Luther King”, uma canção anti-racísta de autoria de Simonal e Ronaldo Bôscoli, lançada em compacto com grande sucesso no mesmo ano.
A partir de 1967, Simonal realizou uma série de quatro álbuns com interpretações dos melhores jovens compositores da época como Caetano Veloso, Jorge Ben(jor), Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Marcos e Paulo Sérgio Valle: “Alegria Alegria - vol. 1”, “Alegria Alegria - vol.2 ou quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” de 1968, “Alegria Alegria - vol.3 ou cada um tem o disco que merece” e “Alegria Alegria - vol.4 ou em homenagem a graça, a beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira”, ambos de 1969. Estes discos foram embalados por grandes êxitos como “Sá Marina”, “Zazueira”, “Que Maravilha”, “Mustang Cor de Sangue”, “Silva Lenheira”, “Maquilagem”(de autoria de Simonal), “Que Maravilha”, “Quem Mandou” e seu maior sucesso, “País Tropical” também lançado na Itália como “Ecco Il Tipo Oche Io Cercavo”. Com apenas 31 anos, Simonal chegou ao seu máximo, com uma carreira internacional tendo se apresentado na Inglaterra, Itália, França, Portugal, Venezuela, Peru e Argentina. No Brasil, Simonal fez apresentações triunfantes (algumas com a renda revertida para orfanatos), uma delas, no encerramento do IV Festival Internacional da Canção (onde ele foi o presidente do juri), no Rio de Janeiro, ele “regeu” um coro de 15 mil vozes cantando “País Tropical” em um Maracanãzinho lotado, reafirmando sua característica de manter domínio total sobre a platéia. E em 1969, Wilson Simonal quis também ter domínio total sobre sua carreira e tornou-se o primeiro artista brasileiro a se auto-empresariar abrindo a Simonal Produções e logo assinou um contrato milionário com a multinacional Shell para estrelar uma campanha publicitária sem precedentes.
Em 1970, Simonal estrelou o longa-metragem “É Simonal” dirigido por Domingos Oliveira, e foi para Copa do Mundo no México junto com a Seleção Brasileira de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino. Enquanto o Brasil brilhava nos gramados, os sucessos que Simonal gravara em espanhol estavam nas listas dos mais tocados nas rádios mexicanas e seus shows no luxuoso Camino Real, em Guadalajara, estavam sempre superlotados. Com a conquista brasileira do tri-campeonato, Simonal voltou para o Brasil com fama de pé-quente para lançar o álbum “Simonal” e o hit “Tostão, a Fera de Ouro” que, naturalmente, foram na onda de todo este sucesso.
O ano de 1971 aguardava ansiosamente o álbum “Jóia”, novo trabalho de Simonal, um disco de soul-funk-pop bem abrasileirado que, provavelmente, repetiria o sucesso de seus antecessores. Dez anos após lançar seu primeiro disco, Simonal já era inspiração para novos cantores como Emilio Santiago, até que em agosto a história tomou outro rumo. Conta-se que um gerente de banco ligou para Simonal avisando sobre um grande rombo na conta-corrente da Simonal Produções, e tudo levava a crer que o contador da empresa estava desviando dinheiro. Mas de réu o contador passou a vítima pois, dias depois da denuncia, o contador declarou ter sofrido torturas nas dependências do DOPS (Departamento de Ordem Pública e Social) e processou Simonal por ter sido o mandante, porque, segundo o contador, ele teria sido seqüestrado por seguranças do cantor e conduzido até o DOPS, onde teria apanhado até confessar o roubo.
Em pouco tempo, o caso chegou a imprensa e tomou enormes proporções. Num clima político nacional adverso como no início dos anos 70, onde vários intelectuais e artistas eram delatados e, depois, presos e torturados no mesmo DOPS, Simonal foi, então, difamado como informante a serviço ditadura militar. O mundo desabou sobre Simonal: as vendas de seu Lp “Jóia” caíram drasticamente, as rádios se recusavam a tocar seus discos, músicos o boicotaram, durante um show no Teatro Opinião, em São Paulo ele foi vaiado, na televisão pouquísimos programas lhe abriam espaço (um deles foi o de Flávio Cavalcanti) e a gravadora rescindiu seu contrato. Simonal foi julgado culpado por extorsão mediante seqüestro e, chegou a passar doze dias preso até que, um outro juiz desqualificou o seqüestro em outro julgamento e por ser réu primário, cumpriu o resto da pena em liberdade.
Seus discos lançados após o escândalo como “Se Dependesse de Mim” (1972), “Ninguém Proíbe o Amor” (1975), “Simona” (1983), “Alegria Tropical”(1985), “Os Sambas da Minha Terra”(1991) e “Bem Brasil - Estilo Simonal” (1998, seu 37o e último álbum) não causaram nenhum impacto nas paradas de sucesso e Simonal ficou restrito a apresentações em pequenos clubes e boates. Apesar de sua popularidade em países como Chile e Cuba, Simonal nunca conseguiu se recuperar artisticamente e morreu no ostracismo aos 62 anos em São Paulo vítima de falência múltipla nos órgãos em decorrência de hepatopatia. Simonal sempre alegou inocência e, segundo ele, foi vítima de preconceito racial e de inveja, pois era um artista negro e muito bem sucedido. Em 2003, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, após examinar documentos registrados na época do regime militar, afirmou que não procedia a acusação de delator apregoada a Wilson Simonal.
fonte: sombarato
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